
-Barbara, já vai?
-Já senhor, deu minha hora né?! E eu tenho que correr pra faculdade.
-Ah, sim,claro. A faculdade.
-É, já estou terminando
-e o que você fez esse final de semana?
-Estudei, claro.
-estudou?
-é. e muito
-babi, você estuda demais. E os seus amigos, não sai com eles?
-Não tenho tempo pra isso não, senhor. Tenho que trabalhar se quero chegar aonde pretendo, deixar de lado todas essas bobagens.
-Bobagens?
-É. conselho de Paola!
-E você quer acabar como a Paola? Encalhada?-Não fala assim dela. Ela é uma pessoa muito divertida e só está sozinha por opção, por que fãs é o que não falta pra ela.
-tá. Mas vamos deixar de falar de Paola. Estava pensando em sair essa noite, ir a um restaurante que tem aqui perto. Mas não tenho com quem ir. Ai, esse trabalho, está me deixando cada vez mais só, sabe Babi, ultimamente tenho me sentido tão sozinho, tudo o que eu mais queria agora era uma companhia, uma amiga para poder rir, conversar...
-coitadinho. Deve ser pesado mesmo carregar essa empresa nas costas. Olha, se o senhor quiser...
-Por favor, sem formalidades, já disse que pode me chamar de você.
-Tá bom. Mas então,se o senhor,quero dizer, se você quiser eu saio mais cedo da faculdade e a gente vai junto.
-Serio? Faria isso por mim?
-Claro. Sabe que gosto muito de você, quero te fazer companhia. Vai ser legal.
-Claro, claro. Te pego que horas então?
-Pode ser ás nove. Você sabe aonde estudo né?
-Sei, claro. Pode me esperar.
-Então tá bom, já vou.
-Hasta luego!
Barbara saia do trabalho, contente e orgulhosa por pensar estar fazendo uma boa ação, ajudando um amigo.Enquanto isso, Cezar dava seus pulinhos de satisfação porque acreditava já ter conquistado mais uma para satisfazer seus caprichos de bem-sucessido carente. Na verdade, a sua completa indiferença com todos os funcionarios da empresa o fazia não conhecer muito bem cada um,e um bom exemplo era Barbara. Ele ainda não tinha percebido o quanto Babi era diferente das outras, mas isso estaria longe de ser motivo para ele desistir de seu capricho.
-Zekinha, o que está fazendo aqui a essa hora na Miss?
-Estou trabalhando Cezar, preciso checar os numeros dessa ultima tiragem.
-Mas por que não foi embora ainda? Está uma noite tão bonita! Camom boy!
-Eu já disse! Estou trabalhando! Parece que as nossas vendas estão caindo.
-Caindo? Mas como isso, se minha conta bancária só engorda?
-A sua conta bancaria pode estar engordando, mas a da Miss eu posso dizer que passa uma fome da Etiópia.
-Oh! Mas o que está me contando Zekinha? Você vai ter que me explicar isso melhor.
-Então, parece que a nova revista...
-Não! Agora não. Eu preciso ir, ir me arrumar para encontrar uma gatinha.
-Ah, novidade. Quem é a presa dessa vez?
-A Babi.
-A Babi? O senhor só pode tá de brincadeira né?!
-Por falar nisso, aonde fica a faculdade dela?
-O senhor não sabe?
-Não faço a mínima idéia.
-É aquela perto da estação.
-Mas como conseguiu isso? A Babi é virgem!
-Ok. Agora eu vou. E isso não é da sua conta, mero operario! Adeus.
-Tá bom, tá bom. Não está mais aqui quem falou.
Cezar pega o elevador pensando em qual das suas samba-canção usará a noite. O Zekinha, como todo funcionario dedicado que se preze, trabalha calculando o dia da doce vingança do patrão:
Mero operario? Eu quero ver quem vai ser o mero operario quando essa editora quebrar, quando ela precisar de um contador brilhante,como eu, quero ver.
E nem um minuto a mais ou a menos, chega Bernardo na casa de Paola e Fantine:
-Oi Fantine, posso entrar?
-Entra Bernardo, nosso advogado!
-Tudo bom? A Paola tá aí?
-Não, ela foi buscar o Mario, nosso amigo, mas eles já devem estar voltando. E então?
-Então o que?
-O que estudou sobre o caso?
-Temos algumas chance, mas...
-E aí gente!
-Oi Paola, tudo bom?
-Perdi alguma coisa?
-Não , o Bernardo estava nesse momento começando a falar o que viu sobre o caso.
-Ai, eu esqueci de apresentar. Mario, esse é Bernardo. Vai advogar a gente com a ONG.
-Olá Bernardo. O mais novo amigo da nossa pequena familia?
-Não, Mario. Na verdade o Bernardo não é lá um amigo da familia, ele trabalha comigo e se propos a ajudar, só isso.
-Paola! O Bernardo é nosso amigo sim, Mario! Está nos ajudando, tá sendo um ótimo amigo.
-Deixa, Fantine. A Paola tá certa. Vocês nem me conhecem direito. E, Paola, eu tô fazendo isso pra te ajudar, mas pricipalmente por causa daqueles jovens. Acredito nessa causa. Aliás, queria aproveitar pra elogiar sua iniciativa. Foi uma ótima idéia, parabéns!
-Ah, que isso, eu só estou fazendo a minha parte não é mesmo?!
-Assim como todos devem fazer a sua.
-Mas, Bernardo, por que deixou a advocacia e ainda por cima foi parar na fotografia?
-Ai, Fantine, é uma longa história. Mas eu posso resumir dizendo que depois de atuar 2 anos como advogado eu vi que isso não me deixava ajudar as pessoas como queria. Achei que a imagem, sei lá, fotografar cenas reais e mostra-las pro mundo fosse uma forma melhor de mudar a realidade. E é.
-Paola, acho que temos mais um idealista para o grupo, não é mesmo Mario?
-Mas você quer mudar o mundo atraves de uma revista feminina?
-Opa opa, eu senti uma pontinha de preconceito aí, senhor Mario? Quem disse que uma revista, só por ser feminina, não é capaz de conscientizar as pessoas?
-Paolinha, meu amor, longe de mim falar uma asneira dessa. Eu só quis dizer que caras como ele geralmente estão cobrindo a guerra do Iraque, oras.
- Olha, Mario. Eu já cobri a guerra do Iraque. Eu sei que pode parecer estranho, mas você faz mais diferença numa revista ou em qualquer lugar que você tenha liberdade de expressão, entende?
-Hum. To bobo com seu amiguinho, Paola. Ele tem muito a oferecer hein! Vai arrasar na Miss!
-Você cobriu mesmo a guerra do Iraque?
-Sim.
-E foi despedido?
-Não. Na verdade eu preferi sair do jornalismo de televisão. Aí saí atras de um emprego como esse, sem tanta manipulação.
-Ah. Mas chega de converda fiada. Vamos começar logo, qual o seu diagnostico, doutor.

As vezes acho que conheço minha amiga mais do que a mim mesma. Enquanto Bernardo falava, a Paola parecia admira-lo um pouco mais a cada palavra que ele dizia. Era como se as idéias de Bernardo surtissem um efeito de encantamento em Paola, e todas as suas atençoes estavam centradas nele. Pela primeira vez a Paola tinha olhado para o Bernardo sem estar na defensiva e acho que por alguns minutos ela esqueceu do tal “machismo” e considerou o empenho do bom rapaz.É claro que tudo isso era efeito do que nós tinhamos acabado de saber, que ele era na verdade o oposto do que pensava Paola, que suas idéias se encaixavam com a da nossa senhorita independente. Bom, eu via na Paola que alguma coisa tinha mudado, e era uma coisa boa, boa também para nossa história de amor.






